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Ambiental

R$ 2 bilhões da Balata-Tufari vão a madeireiras de fora do Estado. Contrapartida anual de R$ 2 milhões será gerida pela Prefeitura de Canutama, em meio ao caos na gestão pública.

B2 Comércio e Exportação e Madeirantes Serviços — esta com sede em Nova Bandeirantes, no Mato Grosso — arremataram as três Unidades de Manejo Florestal da Flona no sul do estado. A contrapartida socioambiental de R$ 2 milhões anuais prevista no edital vai desembocar num município cuja gestão está em colapso institucional: contas de 2023 rejeitadas pelo TCE-AM, multa de R$ 55 mil ao prefeito Zé Roberto, remessa ao MPAM por improbidade e ausência declarada das audiências públicas orçamentárias que o próprio edital do SFB pressupõe.

RA
Redação Agrovia
Editorial
29 de agosto de 2026 · 3 min de leitura
Fachada da Prefeitura Municipal de Canutama, no sul do Amazonas.
Fachada da Prefeitura Municipal de Canutama, no sul do Amazonas.

Em 27 de agosto de 2026, na sede da B3 em São Paulo, 267 mil hectares da Floresta Nacional de Balata-Tufari, no sul do Amazonas, foram concedidos a duas empresas. Nenhuma tem sede no estado.

O contrato vale R$ 2 bilhões ao longo de 35 anos. Do total, cerca de R$ 2 milhões por ano retornam à região como compensação socioambiental — e boa parte desse retorno depende da prefeitura de Canutama, que atravessa o pior momento institucional da última década.

O leilão em números
ItemNúmero
Área concedida267 mil hectares (24,7% da Flona)
Prazo dos contratos35 anos
Investimento total previstoR$ 2 bilhões (R$ 300 mi em infraestrutura + R$ 1,78 bi em operação)
Retorno anual à regiãoR$ 2 milhões em compensações socioambientais
Fatia obrigatória indígena20% (~R$ 400 mil/ano) — Juma e Mura
Fatia via prefeitura de Canutama80% (~R$ 1,6 milhão/ano)
Produção anual estimada~134 mil m³ de madeira
Empregos previstos577 diretos + 1.154 indiretos

Quem levou o leilão

As três Unidades de Manejo Florestal — pedaços da floresta liberados para retirada controlada de madeira — foram divididas entre a B2 Comércio e Exportação (duas) e a Madeirantes Serviços, Indústria e Comércio de Madeira (uma). Nenhuma tem sede no Amazonas.

A Madeirantes chama atenção pelo porte: registrada em Nova Bandeirantes (MT), aberta em abril de 2021 e com capital social de R$ 120 mil, vai administrar um contrato de cerca de um terço dos R$ 2 bilhões previstos.

O padrão se repete. Em maio de 2025, o leilão da Flona do Jatuarana, em Apuí, foi arrematado por três empresas de Pará e Mato Grosso. Nos dois pregões seguidos, nenhuma vencedora era amazonense.

O caminho do dinheiro que retorna

O edital do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), órgão federal que administra as concessões de floresta pública, obriga cada empresa a destinar uma parcela anual da receita a projetos das comunidades do entorno — as compensações socioambientais, estimadas em cerca de R$ 2 milhões por ano.

Vinte por cento (~R$ 400 mil/ano) vão obrigatoriamente aos povos Juma e Mura, conforme compromisso firmado em junho de 2025 na Consulta Livre, Prévia e Informada — instrumento da Convenção 169 da OIT que obriga o governo a ouvir os povos indígenas antes de decisões que os afetem.

Os 80% restantes (~R$ 1,6 milhão/ano) passam pelo circuito institucional de Canutama. É a prefeitura, junto ao Conselho Municipal, quem define onde o dinheiro será aplicado. E é aí que o cenário complica.

A prefeitura em colapso

Em 3 de junho de 2026 — dois meses e meio antes do leilão — o Tribunal de Contas do Amazonas publicou o Parecer Prévio nº 27/2026 e o Acórdão nº 27/2026, recomendando a rejeição das contas de 2023 e julgando irregular a prestação do prefeito José Roberto Torres de Pontes, o Zé Roberto (União Brasil, reeleito em 2024).

O prefeito foi multado em R$ 55 mil e o processo foi remetido ao Ministério Público do Amazonas para investigação por improbidade administrativa — má gestão do dinheiro público que, confirmada, pode levar a processo criminal, ressarcimento e perda dos direitos políticos.

É o último ponto que liga o caso ao leilão: as audiências públicas, previstas em lei, são o instrumento pelo qual a comunidade opina sobre onde o dinheiro público é aplicado. É exatamente por elas que o edital do SFB pressupõe que os R$ 1,6 milhão anuais em compensações seriam validados junto aos moradores. O mecanismo previsto não existe, na prática, na rotina municipal.

O que ainda pode mudar

O leilão fechou o preço. A operação efetiva ainda depende de uma sequência de etapas — e é nelas que ainda cabe pressão institucional, técnica e social.

A Agrovia acompanhará essas cinco frentes como parte da residência editorial em Canutama.

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