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Enquanto o Amapá fecha contrato bilionário com a China, o açaí do Amazonas ainda tropeça no escoamento

Cooperativa amapaense vendeu 15 mil toneladas até 2031 pra segunda maior rede alimentar chinesa. AM produz 1,3 milhão de toneladas por ano, mas gargalos de água, energia e transporte travam expansão.

RA
Redação Agrovia
Editorial
30 de julho de 2026 às 17:00 · 3 min de leitura
Terminal de cargas fluvial em Codajás (AM), capital estadual do açaí — retrato do gargalo logístico que trava o escoamento
Terminal de cargas fluvial em Codajás (AM), capital estadual do açaí — retrato do gargalo logístico que trava o escoamento · Prefeitura Municipal de Codajás · Wikimedia Commons

A Cooperativa Amazonbai, formada por produtores extrativistas de açaí do Amapá, fechou parceria com a segunda maior rede de distribuição de alimentos da China para fornecer 15 mil toneladas do fruto até 2031. É um dos maiores contratos de exportação de açaí já assinados na região amazônica. Enquanto isso, o Amazonas — segundo maior produtor do país, com 1,3 milhão de toneladas anuais — continua tropeçando em gargalos históricos: acesso à água tratada nas comunidades produtoras, energia elétrica para conservação da polpa e logística de escoamento fluvial.

O que o Amapá acertou

O acordo assinado na Sial China, maior feira de alimentos da Ásia, garante a comercialização de toda a produção da Amazonbai até 2031 — o que significa previsibilidade de receita para centenas de famílias extrativistas cooperadas e estabilidade de preço no mercado interno. O contrato foi fechado depois que os Estados Unidos retiraram, em novembro de 2025, a sobretaxa de 40% que restringia a competitividade do açaí brasileiro no mercado americano.

A cadeia produtiva do açaí no Brasil movimenta hoje mais de US$ 1 bilhão anuais em exportações, lideradas pelo Pará (68,1% da produção nacional) seguido pelo Amazonas.

O que o Amazonas ainda não resolveu

Apesar do volume produtivo — 1,3 milhão de toneladas em 2024, envolvendo 17,5 mil agricultores familiares e extrativistas cadastrados no IDAM —, o AM ainda não conseguiu articular um contrato de exportação continuada com magnitude equivalente ao amapaense. Três gargalos crônicos explicam o descompasso:

  • Acesso a água tratada em comunidades produtoras — condição sanitária mínima para certificação internacional
  • Energia elétrica estável para refrigeração pós-colheita — janela crítica de conservação da polpa é de horas
  • Logística fluvial dependente de balsa e travessia demorada até Manaus para embarque

Codajás, capital estadual do açaí, com Selo de Indicação Geográfica e produção reconhecida (mais de 28 toneladas somando cultivo e extrativismo em 2024, beneficiando 2.450 produtores), sente o mesmo estrangulamento.

A base institucional que existe

O reconhecimento do açaí como fruta nacional pela Lei nº 15.330/2026, sancionada em janeiro, criou moldura legal contra a biopirataria e ampliou proteção jurídica ao produto — passo importante, mas simbólico. A tradução em contratos comerciais concretos depende de infraestrutura e organização em cooperativas fortes.

O IDAM (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas) presta assistência técnica direta a mais de 17,5 mil produtores da cadeia. A SEPROR articula política estadual. A base institucional existe — falta destravar infraestrutura e escala organizacional das cooperativas.

Janela aberta

O mercado internacional continua puxando — China absorvendo produção amapaense é sinal, não isolado, de que a demanda existe. Se o Amazonas conseguir resolver a tríade água-energia-escoamento em polos como Codajás, Anori e Coari, o Estado tem escala pra disputar contratos internacionais no mesmo patamar. É questão de organização produtiva e política pública, não de mercado.

Como isso afeta você

Se você é produtor de açaí no Amazonas, considere: (1) associar-se a cooperativa formal — sozinho é impossível certificar pra exportação; (2) buscar apoio do IDAM na regularização da cadeia produtiva (DAP/CAF + CAR); (3) monitorar editais SEPROR/FAEA de acesso a infraestrutura. Se é investidor ou parceiro potencial: o gargalo do Amazonas é infraestrutura de pós-colheita, não produção — quem resolver isso captura a diferença.

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